O Brasil é uma exceção na América. Em um continente majoritariamente hispanofalante, o português não é um detalhe, mas um traço estrutural. A língua separa, mas sobretudo define. Ela molda referências, ritmos e modos de pensar. Não é apenas um instrumento. É uma forma de organizar o mundo.
Minha experiência profissional no Brasil ajudou-me a compreender como essa singularidade se traduz em arquitetura, em cidade e em território. Escalas, tipologias e relações com o clima e a matéria obedecem a uma lógica própria, que não pode ser lida apenas por categorias importadas. Para compreender um patrimônio, é preciso escutar a sua língua, no sentido literal e metafórico.
São Paulo encarna essa diferença de forma extrema. Diante da imagem do Rio de Janeiro, associada à paisagem e à celebração, São Paulo representa o polo complementar: trabalho, indústria, densidade, esforço acumulado. Onde o Rio se abre ao mar, São Paulo se projeta para cima. Uma é imagem. A outra, motor.
As grandes culturas urbanas organizam-se assim, por contrapesos. Milão e Roma, Madri e Barcelona, Berlim, Munique e Frankfurt, Washington, Nova York e Los Angeles funcionam como sistemas de centralidades complementares. A França é a exceção, com Paris concentrando quase tudo.
São Paulo pertence claramente à lógica do contrapeso. Não é uma cidade bela no sentido clássico. É uma cidade necessária. E é essa necessidade que explica a sua potência.
Recordar esta efeméride é lembrar que as cidades não se compreendem apenas pela forma, mas pela língua, pela história e pelas tensões que as estruturam. Como no patrimônio, conhecer a essência das coisas começa por aprender a chamá-las pelo nome.
Luis Cercós, Paris, janeiro de 2026


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